terça-feira, 29 de janeiro de 2013

O rosto de Deus

por: José Almir da Rosa

 Quando eu era criança, a imagem que eu tinha do rosto de Deus era de um senhor de barbas brancas e que, com o seu poder, tudo via, inclusive os nossos pensamentos. Era um Deus que nos causava temor e nos obrigava a cumprir todos os seus preceitos sob a pena de morrer e ir para o inferno.

Hoje tudo mudou, até mesmo a forma com este mesmo Deus é apresentado à humanidade. Salvo algumas exceções, hoje temos o rosto de um Deus mais humano, mais próximo da realidade das pessoas. Creio que seguindo os preceitos bíblicos: imagem e semelhança do ser humano. Não abordo tal temática porque quero apresentar uma tese de teologia. Longe disto!

Na verdade eu quero contar uma história que aconteceu comigo ali na Praça da Estação (região central de Belo Horizonte). Eis que vinha para o centro num ônibus lotado, meio molhado por causa da chuva. Ainda por cima atrasado. Estava em pé, cabisbaixo e ansioso para chegar ao meu destino. Infelizmente, por conta da chuva, o trânsito estava lento e meu ônibus podia, com grande chance de perder, disputar uma corrida com uma tartaruga.

 Num ponto de ônibus ali da Av. Andradas, pouco depois da Praça, uma mãe com um menino de uns cinco anos esperava o coletivo. Ambos estavam meio molhados. O menino estava sentado, meio encolhido e com a cabeça no colo da mãe. Ainda bem que não estava frio porque ambos estavam sem agasalhos.

Sem nada para fazer, buscando uma distração, de dentro do ônibus, fiz um sinal de joia para o pequeno. Discretamente fui correspondido. Percebi que havia algo de diferente naquela criança. Minha curiosidade foi aguçada e novamente fiz o gesto no intuito de ter uma resposta. Ele me respondeu.  Junto com a resposta deu um sorriso meio tímido e apontou para a mãe como que querendo me dizer que ela podia não gostar do nosso diálogo gestual.

 O ônibus continuava na velocidade do quelônio, mas a esta altura nem ligava porque a minha curta relação com o menino tinha expulsado a ansiedade. Continuei a mexer com a criança e aos poucos ela foi se abrindo e fazendo novos gestos. De repente ela se sentou, apontou para a boca, com um gesto negativo informou que não podia falar. Em seguida apontou para o pescoço e vi que o mesmo tinha uma intervenção na traqueia. Após este momento ele ainda expressou muitos outros gestos inclusive que estava feliz. Desenhou isto na sua face.

 Meu ônibus começou a andar. Dei tchau ao pequeno. Ele sorriu. Não ouvi o som, mas pelo seu rosto parecia uma gargalhada. Aquilo me contaminou e de repente percebi que aquela felicidade tinha me contaminado. O sorriso ficou para trás. Percebi naquele instante que tinha acabado de estar diante do rosto de Deus. 

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