
Espaço para partilhar o que penso, o que vivo e também outros materiais que julgo poder colaborar para que juntos sejamos mais...
sábado, 28 de agosto de 2010

domingo, 22 de agosto de 2010
O entregador

Domingo é dia de pedirmos comida pronta para assim termos mais tempo para não fazer nada. Assim eu fiz outro dia numa destas manhãs chuvosas e frias de outono. Liguei num famoso "delivery" da região por volta do meio dia e pedi um prato para dois. Uma hora depois, voltei a ligar reclamando da demora. Já nervoso, meia hora após a última ligação, voltei a contatar o restaurante e ouvi da atendente que o motoqueiro já estava a caminho.
Minha companhia de almoço, bastante impaciente e com hora marcada, deixou-me só. Já com os nervos a flor da pele, resolvi cancelar o pedido. A campanhia tocou. Depois de duas horas de atraso meu almoço tinha chegado. Desci as escadas disposto a falar um monte de abobrinhas para o entregador. Silenciei ao ver o estado lastimável em que ele se encontrava.
Moço - disse-me ele – não se assuste com a minha aparência. Sofri um acidente, mas a seu marmitex ficou intacto.
Sujo, com a jaqueta jeans rasgada e com alguns arranhões nos braços ele abriu o que restou do baú de entrega e foi me passando o marmitex. De fato ela estava inteira. Toda a minha raiva deu lugar ao sentimento de pena e a uma reflexão.
Vivemos numa sociedade no qual um jovem, ao esbarrar em outra pessoa, teve a sentença de morte instantânea. Duas horas de atraso bastou-me para condenar aquele entregador a levar o marmitex de volta, ouvir de mim um monte de desaforos e ainda ter que se entender com o patrão.
Toda hora enfrentamos situações como a que eu vivi e quase sempre agimos por impulso. Matamos muitas pessoas diariamente com atitudes e palavras. Não podemos ser contrariados que já queremos tirar satisfação. O que importa é eu estar bem. Errar é humano só para mim, para o outro é inconcebível.
Após pegar o marmitex e já com outros sentimentos no coração, pedi para o moço esperar um pouco. Fui até o meu guarda roupa e peguei uma velha jaqueta. Peguei também um anti-séptico para limpar as feridas. Já na porta perguntei ao motoqueiro se aquela jaqueta poderia minimizar o frio até o restaurante. Ele disse que sim e informou que depois me devolveria. Disse a ele que era um presente e orientei-o a limpar suas feridas. Agradeceu, sorriu e partiu.
Almocei pensando no caso do entregador; pensando que, na maioria das vezes, cultivar o amor ou ódio só depende de nós. Fiz ali um propósito para a vida: não agir movido pelo desamor.
Meu telefone tocou. Era o dono do restaurante me agradecendo pela paciência da espera e pelo presente que eu tinha dado ao seu filho. Não se trata da jaqueta, disse aquele senhor, venha até aqui um dia destes que lhe contarei toda a história. Só me avise antes para eu poder lhe esperar.
Acatei o convite e passei no domingo seguinte naquele restaurante. O proprietário me abraçou e contou-me que naquele dia que o seu entregador tinha faltado. Bastante irado com o faltante, tinha pedido ao seu filho para fazer a primeira entrega do dia. Esse, mesmo contrariado, acatou o pedido do pai. O excesso de velocidade causou o acidente que quase lhe custou à vida.
Meu filho e eu – falou o proprietário do restaurante – aprendemos uma grande lição. É possível romper a corrente da raiva. Sua postura diante do atraso, seus cuidados com ele e até mesmo o presente que lhe deu, ajudou a romper um processo negativo que quase custou a vida do meu único filho. Hoje o almoço é por nossa conta.
Em silêncio dirigi-me a uma mesa sabendo que aqueles fatos também tinham sido uma escola para mim.
Uma hora depois levantei e gritei para o garçom que o meu almoço estava atrasado. Antes que o proprietário chegasse até a minha mesa, comecei a sorrir e a contar para todos como é possível construir a corrente do amor.