sábado, 28 de agosto de 2010

E-mail


por José Almir da Rosa


Que bom se existisse um "mail" de a gente contatar as pessoas que amamos de maneira rápida e eficaz. Que não fosse burocrático e demorado como as vezes é a carta, que não custasse praticamente nada e ainda por cima pudesse ser utilizado 24 horas por dia. Com isto as pessoas não precisariam mais inventar desculpas para não estabelecer contatos. Certamente os amigos iam ter este meio para mandar notícias, os parentes iam expressar o seu carinho e a sua saudade, toda hora, o tempo todo, através dele. Todos que nos amam iam abusar deste mecanismo para obter e dar informações ou simplesmente aproveitar a tal facilidade para mandar, a cada momento, uma expressão de carinho. Claro, sempre personalizado, com muito calor humano e recheado de energia positiva. Nossa como seria bom se isto existisse...como seria.

domingo, 22 de agosto de 2010

O entregador




por: José Almir da Rosa

Domingo é dia de pedirmos comida pronta para assim termos mais tempo para não fazer nada. Assim eu fiz outro dia numa destas manhãs chuvosas e frias de outono. Liguei num famoso "delivery" da região por volta do meio dia e pedi um prato para dois. Uma hora depois, voltei a ligar reclamando da demora. Já nervoso, meia hora após a última ligação, voltei a contatar o restaurante e ouvi da atendente que o motoqueiro já estava a caminho.


Minha companhia de almoço, bastante impaciente e com hora marcada, deixou-me só. Já com os nervos a flor da pele, resolvi cancelar o pedido. A campanhia tocou. Depois de duas horas de atraso meu almoço tinha chegado. Desci as escadas disposto a falar um monte de abobrinhas para o entregador. Silenciei ao ver o estado lastimável em que ele se encontrava.



Moço - disse-me ele – não se assuste com a minha aparência. Sofri um acidente, mas a seu marmitex ficou intacto.



Sujo, com a jaqueta jeans rasgada e com alguns arranhões nos braços ele abriu o que restou do baú de entrega e foi me passando o marmitex. De fato ela estava inteira. Toda a minha raiva deu lugar ao sentimento de pena e a uma reflexão.



Vivemos numa sociedade no qual um jovem, ao esbarrar em outra pessoa, teve a sentença de morte instantânea. Duas horas de atraso bastou-me para condenar aquele entregador a levar o marmitex de volta, ouvir de mim um monte de desaforos e ainda ter que se entender com o patrão.



Toda hora enfrentamos situações como a que eu vivi e quase sempre agimos por impulso. Matamos muitas pessoas diariamente com atitudes e palavras. Não podemos ser contrariados que já queremos tirar satisfação. O que importa é eu estar bem. Errar é humano só para mim, para o outro é inconcebível.



Após pegar o marmitex e já com outros sentimentos no coração, pedi para o moço esperar um pouco. Fui até o meu guarda roupa e peguei uma velha jaqueta. Peguei também um anti-séptico para limpar as feridas. Já na porta perguntei ao motoqueiro se aquela jaqueta poderia minimizar o frio até o restaurante. Ele disse que sim e informou que depois me devolveria. Disse a ele que era um presente e orientei-o a limpar suas feridas. Agradeceu, sorriu e partiu.



Almocei pensando no caso do entregador; pensando que, na maioria das vezes, cultivar o amor ou ódio só depende de nós. Fiz ali um propósito para a vida: não agir movido pelo desamor.



Meu telefone tocou. Era o dono do restaurante me agradecendo pela paciência da espera e pelo presente que eu tinha dado ao seu filho. Não se trata da jaqueta, disse aquele senhor, venha até aqui um dia destes que lhe contarei toda a história. Só me avise antes para eu poder lhe esperar.



Acatei o convite e passei no domingo seguinte naquele restaurante. O proprietário me abraçou e contou-me que naquele dia que o seu entregador tinha faltado. Bastante irado com o faltante, tinha pedido ao seu filho para fazer a primeira entrega do dia. Esse, mesmo contrariado, acatou o pedido do pai. O excesso de velocidade causou o acidente que quase lhe custou à vida.



Meu filho e eu – falou o proprietário do restaurante – aprendemos uma grande lição. É possível romper a corrente da raiva. Sua postura diante do atraso, seus cuidados com ele e até mesmo o presente que lhe deu, ajudou a romper um processo negativo que quase custou a vida do meu único filho. Hoje o almoço é por nossa conta.



Em silêncio dirigi-me a uma mesa sabendo que aqueles fatos também tinham sido uma escola para mim.



Uma hora depois levantei e gritei para o garçom que o meu almoço estava atrasado. Antes que o proprietário chegasse até a minha mesa, comecei a sorrir e a contar para todos como é possível construir a corrente do amor.