Gosto muito da natureza, particularmente das plantas e dos pássaros. Mesmo estando no meio de uma selva de pedra e dentro de uma caixa de concreto (o apartamento), crio meios e modos visando a estar próximo da nossa mãe universal.
Recentemente comprei um daqueles bebedouros que se coloca para os beija-flores. Não demorou e os coloridos passarinhos passaram, para minha alegria, a visitar o local e encantar o observador.
Vejo que o objeto também atrai outras espécies de pássaros, abelhas e formigas. Estas últimas, infelizmente, indesejadas porque tomam conta do bebedouro e interrompe o tão belo ritual dos beija-flores.
Nos finais de semana comecei a observar as cores e tipos dos visitantes. Sem exceção, todos belíssimos e com peculiaridades individuais que encantam qualquer um que tenha tempo e paciência para esperá-los.
Numa destas esperas, já acomodado num pufe, meu observatório improvisado, cochilei e com isto a noite chegou. Junto com ela surgiu algo que me causou grande estranhamento. Os morcegos começaram a voar naquele espaço e a sugar a água com açúcar depositada para alimentar os beija-flores.
Em princípio os repudiei. Pensei que a minha tão divertida missão de observar pássaros estava ameaçada por aqueles ratos voadores. Infelizmente até então a minha visão preconceituosa colocava os bichinhos no mesmo patamar dos roedores dos esgotos, animais que me causam grande aversão.
Recolhi o bebedouro na esperança de afugentar os morcegos. Não deu certo. Ao deixá-lo lá novamente, tal como os pássaros do dia, vinha os amantes do néctar de açúcar da noite. Ambos gostam de flores.
Fui vencido pela persistência. Por curiosidade passei, sempre que possível, a observar os dois grupos, os diurnos e os noturnos. Aos poucos fui percebendo que os animaizinhos da noite estavam sendo foco do meu preconceito. Havia beleza em um e no outro.
Com este fato eu acabei percebendo que vitimamos muitos com o nosso olhar. Quantos "morcegos", "ratos voadores", "peludinhos de asas" repudiamos de nossas vidas porque acreditamos que somos a única espécie com direito ao néctar das flores ou mesmo a água com açúcar. A todo custo procuramos afugentá-los simplesmente porque acreditamos que a beleza reside apenas nas plumas coloridas dos pequenos beija-flores.
Beija-flores tem um tipo de beleza, morcegos têm outra. Os primeiros voam sob a luz do dia, os segundos à noite. Cada um, com suas peculiaridades, tem uma função na natureza. Ambos são criaturas do mesmo criador. Todos merecem ter o nosso respeito e o nosso carinho. Devemos viver harmonicamente. É a lei universal!
Tudo que for diferente disto cai na vala do preconceito e nos torna muito próximos dos ratos. No passado tivemos um líder nazista que agiu desta forma. Hoje não precisamos ir muito longe para encontrar seus seguidores. Extremistas como os skinheads ou anônimos que estão no meio de nós.
É possível corrigir o nosso olhar. Há beleza na diversidade. Fora disto deixamos de buscar alimentos nas flores para buscá-los no lixo. Lixo dá doenças, tem mau cheiro e tem ratos. Estes não têm asas. Sendo assim, continuo admirando beija-flores. Aprendi a gostar dos morcegos.



