terça-feira, 19 de março de 2013

Escutar com a Alma

por: José Almir Rosa

Um colega me sugeriu que criasse um curso de escutatória. Isto não seria novidade, Rubem Alves, numa de suas crônicas, disse ter pensado igual e, da mesma forma do que ele, acredito que não haveria público para isto.

 No texto de Alves, ele cita uma frase de Alberto Caeiro: "não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma."

 Vivemos numa sociedade que está carente de pessoas que estejam dispostas a escutar com o silêncio da alma. Até ouvem, mas escutar é algo que o corre-corre do dia-a-dia e diversos outros fatores impedem que aconteça.

 Escutar parece ser coisa antiga, de cidade do interior, de pessoas mais velhas ou sem ocupação. Outros ainda acreditam que tal ação é de competência exclusiva de profissionais que são remunerados para esta finalidade.

 Como citei no início do texto, muitas pessoas ouvem as outras. Isto é pouco. Ouvimos o barulho das ruas e o latido do cão. O ideal é que a gente aprenda a escutar, que pode ser definido como dar atenção a; tornar-se atento para ouvir; dar ouvidos a; perceber; espiar; auscultar.  Para que isto seja possível, é necessário que se tenha tempo e vontade. Isto está se tornando raridade.

 Há pais que não escutam filhos, filhos que não escutam pais. O diálogo está sendo suprimido pela televisão, pelo computador e por outras parafernálias tecnológicas que estão surgindo. Estamos preenchendo o nosso tempo, o dia todo, com elementos que nos impedem de escutar.

 No ambiente profissional a situação é semelhante. Grandes problemas deixariam de existir ou seriam facilmente solucionados se parássemos e escutássemos os nossos colegas de trabalho. Dialogar com os ouvidos.

 Respondendo ao meu colega, afirmo que é possível fazer um curso de escutatória, desde que seja prático e pessoal.  O primeiro passo é exercitar o silêncio. Em seguida escutar e não simplesmente ouvir o mundo à sua volta.

 Na faculdade eu aprendi um exercício que pode ajudar neste processo. Ao sair de casa, "ligue o seu radar" auditivo para captar os sons que chegam até você. No silêncio comece a distinguir cada barulho. Se um cão late, observe se ele é grande ou pequeno. Se um pássaro canta, busque identificar a sua espécie. Outros barulhos surgirão. Ouça-os atentamente. Individualize-os.

 Vencida esta etapa, passe para o segundo módulo. Escute as pessoas que estão a sua volta. Nesta etapa é muito comum que o escutador ouça rapidamente e acabe por falar quase que o tempo todo. Erro gravíssimo que deve ser corrigido sempre.

 No mais é prática e, como bem escreveu Alberto Caieiros citado por Rubem Alves: escute sempre com a alma.