Por José Almir da Rosa
Uma jovem por nome Maria Leopoldina, nome escolhido porque a mãe sonhava que a filha fosse, um dia, rainha de alguma coisa, moradora de uma comunidade carente, ficou grávida após um relacionamento rápido com um rapaz mais velho que era chamado pelo nome de Zezinho.
Após saber da gravidez Zezinho, desempregado e semi-analfabeto resolveu não assumir a criança e sumir. Para isto contou com o apoio de sua família que não admitiria mais uma boca para sustentar.
Ocorre que quando o pai da moça, que era chefe da máfia do morro onde viviam ficou sabendo da situação, mandou avisar ao rapaz que ele e toda a sua família estavam com os dias contados se não voltasse ou, ao menos, soltasse uma grana na mão do futuro avô que precisava renovar o seu estoque de munição. Além disto, se Zezinho insistisse em não aparecer, mandaria a filha para uma clínica de aborto porque não queria que ela ficasse "embuchada" na casa dele. Ah, quem pagaria a conta seria a família do futuro papai, pessoas muito simples que viviam de catar latinhas.
Diante de tal ameaça e sabendo da fama do futuro sogro, o pobre homem não teve escolha e, após ter sonhado com toda aquela situação, voltou para a comunidade e levou Maria para morar com ele num outro morro que fora recém-invadido e ficava nas imediações. O barracão deles era metade de barro metade de restos de construções. Não tinha banheiro e as roupas eram lavadas numa bica que ficava numa pequena reserva de mata que tinha sobrado no lugar.
Como ambos não tinham emprego, se tornaram "aviõezinhos" do tráfico e com este dinheiro foram se virando enquanto a barriga de Maria crescia dia após dia.
Ela nunca fez pré-natal, mas sempre achava que o bebê seria um menino. Intuição de mãe mesmo. Até comentava que fazer como a sua mãe e dar um nome de rei para o bebê se fosse confirmado a sua suspeita.
A menina tinha ficado grávida no mês de março, num feriadão de carnaval. Já com nove meses, numa noite chuvosa, ambos foram alertados que o morro do pai da moça tinha sido invadido por um grupo rival e que todos os moradores, principalmente aqueles ligados ao chefão, seriam mortos se continuassem ali. Maria e José fugiram às pressas e meio sem rumo foram para o centro da cidade.
A cidade estava lotada por causa do final de ano e eles não encontraram lugar para pernoitar. Nem mesmo aqueles motéis baratos que cobram preço único por uma noite, quiseram receber o casal. Sem opção resolveram ir para debaixo de um viaduto.
Lá havia alguns moradores de rua em volta de uma fogueira papeando e tomando cachaça para esquentar o corpo molhado com os respingos da chuva que caía intensamente. Era a forma que eles tinham para comemorar o Natal.
Zezinho, barbudo e suando muito por causa da longa caminhada, perguntou aquelas pessoas se eles podiam passar a noite ali. Mostrou a mulher grávida e garantiu que eles eram do bem. Meio desconfiados, aceitaram o casal, porém, longe do fogo que era exclusivo daquele grupo que se diziam dono de toda aquela área embaixo viaduto.
Um dos maltrapilhos, compadecido com a barriga grande de Maria, rasgou sua caixa de papelão e deu para ela a metade. Maria, extremamente cansada, agradeceu e foi se deitar.
De madrugada, quando todos estavam bêbados e dormindo, Maria começou a gemer, pois tinha entrado em trabalho de parto. Um dos habitantes do local, assustado e ainda zonzo por causa da bebida, pegou o seu celular para chamar o Samu.
Infelizmente a bateria do aparelho estava fraca e não conseguiu completar a ligação. Mesmo se tivesse conseguido não daria tempo, pois o bebê que realmente era um menino, apressado, nasceu. Naquele momento, fogos por toda a cidade iluminaram os céus, era meia noite e a cidade comemorava a chegada do menino Jesus: era Natal.