quarta-feira, 24 de abril de 2013

Rosto

por: José Almir da Rosa

Caminhava apressado pelo centro da cidade quando observei dois adolescentes, em tom de sátira, comentarem sobre um senhor idoso que pedia esmola embaixo de uma marquise. São tantos!

A postura dos meninos chamou a minha atenção e fez com que eu diminuísse os passos apressados que me levavam ao trabalho. Voltei meu olhar para o pedinte e notei que seu rosto se destacava dos demais devido às grandes e profundas rugas que preenchia a sua face.

Realmente o ser que estava na sarjeta chamava a atenção. Além dos sulcos na face, ele tinha um semblante de dor que, somado às suas vestes surradas e sujas, faziam dele objeto de escárnio por parte de uns, de sátira por outros e de pena pelos demais.

Pela sua situação julguei que tinha cerca de 70 anos, talvez menos. Apesar da sujeira concentrada, destacava em sua face a barba branca e os olhos esverdeados.

Imaginei o quanto de história aquela pessoa já havia testemunhado. Qual seria o seu nome? Será que ele viveu sempre assim? Seria aposentado? Teria família? Era avô?

Questionamentos sem respostas que foram interrompidos pelo barulho de duas moedas que caíram no chapéu.

Um leve sorriso quebrou a sisudez daquele rosto. Vi dentes. Eram amarelados e muito irregulares. Naquele movimento vi também um pouco da sua alma. Ele expressou gratidão, abençoando o gesto de doação.

Novamente o semblante se tornou sério, sisudo, quase imóvel. Já o contemplava há minutos, de longe, para não causar estranheza. Duas senhoras bem vestidas também se aproximaram. Vi que uma delas lhe ofereceu algo para comer. Ele não aceitou. Ambas, revoltadas pela negativa, saíram balbuciando palavras. Não eram elogios.

Não tinha mais tempo para permanecer ali. Afastei-me. Os questionamentos seguiram comigo.

Não tinha dado esmola para o mendigo, mas sabia que aquele homem tinha levado algo de mim. Naquela manhã de outono meu coração tinha se tornado menos frio. Aquele rosto do meio da multidão, de alguma forma, resgatou a minha sensibilidade em relação a outro ser humano.