sexta-feira, 26 de outubro de 2012

O rabo do vira lata

Por José Almir Rosa

Gosto de gente. Gosto de observar as pessoas, seus hábitos e atitudes. Faço muito este exercício quando caminho pelas ruas da cidade. Quantas idas e vindas, quantos passos apressados, quantos olhares desconfiados e muita, mas muita pressa.

Com a pressa caminhamos num amontoado de pessoas como se estivéssemos sozinhos. Triste. Somos solitários na multidão. Mais solitários do que os transeuntes, são os moradores de rua. Coitados! Vivem nas sarjetas, maltrapilhos, ignorados por todos e abandonados pelo Estado. Só Deus os assiste e os vira latas. Isto mesmo, quase sempre do lado de uma destas pessoas há um ou mais cães acompanhando-os e dando a eles um pouco de carinho e companhia. Lembre-se que eles vivem sozinhos na multidão.

Foi graças a um destes animais que resgatei, com meu olhar, uma destas pessoas que ficam envolta a jornais e plásticos dormindo na calçada. O cão vira lata "puro" focava o olhar no seu dono e a qualquer movimento deste, balançava o rabo.

Naquele instante, o rabo deste animal me avisou que ali, a poucos metros de onde estava, havia um ser humano que, por uma situação peculiar, tinha se tornado um morador das ruas. Tal pessoa tinha como única companhia o seu cão amarelo que eu tinha certeza que era um vira lata puro.

A imagem me chamou a atenção. Automaticamente comecei um processo de reflexão no qual nascem muitas perguntas e poucas respostas? Por quê?

Creio que há um misto de culpa e solidariedade por ver uma pessoa em tamanha miséria. Parece que para nos protegermos, optamos por limpar tal realidade do nosso campo de visão. Elas podem continuar existindo, mas usamos subterfúgios para não as enxergamos.

Naquele instante o vira lata mudou isto. Aquele balançar do rabo era um gesto de carinho muito peculiar. Algo bem maior que a maioria que estava passando por ali fazia. Inclusive eu!

Iria continuar a minha jornada, mas, mesmo que não quisesse, teria que levar o rabo em movimento na minha memória. Fiz a minha mea culpa e prometi para eu mesmo olhar mais para os moradores de rua. Mesmo que do lado deles não haja um vira lata.

Espero que outras pessoas vejam os vira latas. Espero também que não faltem rabos balançando para os mendigos. Isto, ao menos, até que haja mais corações que tenham sensibilidade com esta população que vive nas ruas na companhia de seus cães vira latas.

Um comentário:

  1. Fala Zé, o pior é que é verdade, muitas vezes esquecemos que os moradores de rua são pessoas que precisam das mesmas coisas que a gente, embora quase nunca as tenham.
    É comum o repúdio, talvez por desconfiaça ou medo, mais não importa, as mudanças que queremos para este mundo, tem que começar na gente.
    Parabéns, abraço...
    Laco...

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