terça-feira, 28 de agosto de 2012

A travessia de Teresa

por: José Almir da Rosa

Depois de uma noite mal dormida, acordei atrasado e tive que acelerar tudo a fim de conseguir chegar dentro do horário ao trabalho. Como é de costume caminhei a passos largos até a passarela que precisava cruzar a fim de chegar ao ponto de ônibus.
Lá, praticamente já no horário em que o meu ônibus passava, me deparei com um senhora de cabelos brancos, meio debilitada e com muitas marcas no rosto. Creio que ela deveria ter uns 80 anos.
A velha senhora me relatou que tinha embarcado no ônibus errado e que necessitava atravessar a avenida, a fim de retornar ao seu ponto de origem. Indiquei-lhe a passarela e qual não foi a minha surpresa quando lágrimas escorreram pelo seu rosto e meio cabisbaixa disse-me que não podia. Tinha medo de altura.
Naquele momento eu tinha que escolher entre ajudar aquela pobre senhora ou embarcar no meu ônibus. Escolhi ajudá-la e dei o braço à vovó que se apresentou com Teresa.
Com passos lentos fomos em direção a passarela e a senhora me disse que lamentava que necessitasse da ajuda de estranhos para poder se locomover em situações como aquela. Ela falou-me que era mãe de muitos filhos e tinha dezenas de netos mas, na atual circunstância, todos tinha seus afazeres e ela não podia contar com eles para mais nada.
Começamos a subir a rampa da passarela e ao ouvir o lamento daquela avó me lembrei da minha que também se chamava Teresa. Como gostaria de estar ali subindo com minha vozinha segurando em meus braços como fazia à senhora Teresa. Infelizmente minha vovó, há muito tempo, já foi morar na eternidade.
Já no alto da passarela a senhora me relatou que sofreu um AVC há alguns anos e desde então tinha ficado com problema em relação à altura. Que gostaria muito que um dos seus filhos ou netos a entendessem e agissem da mesma forma que eu estava agindo. “Acham que as coisas que falo e faço são caduquices”, disse ela.
Novamente fiz um paralelo com  a minha avó Teresa. Lembrei-me dos seus ensinamentos em relação ao respeito com os mais velhos. Lembrei do zelo que tinha com nós, os netos e também a alegria que tínhamos em tê-la do nosso lado.
Naquela travessia eu percebi que nem tudo era da forma deveria ser. Que existem muitas Teresas, Martas, Marias, João e José, idosos, que estão jogados a própria sorte porque os filhos estão atarefados com seus afazeres.
A travessia chegava ao final e a vovó Teresa não se cansava de me agradecer. Suas palavras doces e suaves foram atingindo a minha alma e uma paz foi irradiando pelo meu corpo.
A história já teria tido um final feliz se tivesse acabado ali. No entanto, já sem Teresa, encontrei um senhor também idoso que me parou e disse firmemente: eu vi o que você fez. Apontou para o céu e disse: Ele também.



3 comentários:

  1. Amigo... literalmente: Chorei!!!!

    Que Deus abençoe a todos os 'Josés' e 'Terezas'"

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  2. Lindo Zé! Histórias como estas no toquem lá no íntimo neh? Penso em como somos egoístas em nosso dia-a-dia, de repente .. algo nos desperta um alívio da alma quando fazemos pequenos favores.

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  3. Muito lindo Zé...me emocionei!

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