terça-feira, 10 de agosto de 2010

O recado de Deus


por José Almir da Rosa




Certa manhã de domingo comecei a me questionar sobre a presença de Deus em minha vida. Será que o Criador do Universo realmente existia ou se tratava de mais um conto de fadas passado de geração em geração?


Pois bem, com tais indagações resolvi procurar um teólogo para fazer alguns questionamentos a ele sobre a existência de Deus.


Lugar ideal para encontrar tais pessoas são as igrejas, chamadas casas de Deus. Como não morava tão longe de uma catedral, decidi que era para lá que eu ia buscar o teólogo e quiçá me encontrar com Deus.


Era uma manhã de primavera, o sol já brilhava e, antes de sair, fui colocar comida para os pássaros num prato que tinha no jardim da casa em que eu morava. Como estava com pressa, sem querer, esbarrei num pé de rosa e esta, que tinha apenas uma flor aberta, acabou me molhando com o sereno da madrugada. Não dei atenção e fui até o local dos pássaros. Um sabiá, no pé da pequena laranjeira, cantava sem parar. Ignorei. Fui para a estação de metrô.


Duas crianças brincavam nas escadas rolantes. Quase esbarrei numa delas e fiquei meio encabulado com a situação. Já dentro do metrô, cheio de inquietação, observei que uma senhora de cabelo branquinho, me observava. Aquilo me incomodou. Ela, ao perceber o meu incômodo, deu um belo sorriso e sutilmente virou o rosto. Ela desceu na estação seguinte e já fora do metrô voltou a sorrir. Desapareceu no meio das centenas de pessoas que estavam naquela estação.


Já no meu destino fui me informar com um vendedor de pipocas sobre o endereço correto da catedral. Ele pediu para que eu aguardasse porque o milho estava começando a estourar. Também com um sorriso, me deu algumas pipocas quentes. Agradeci, mas, como estava impaciente, decidi arriscar e seguir um dos caminhos em direção à casa de Deus. Logo numa esquina me deparei com a imponência da catedral que deveria estar a poucas quadras dali.


Minha atenção foi desviada quando percebi que uma mulher com uma criança no colo me pediu esmola. Ia dizer não, mas o olhar da criança foi mais forte. Tirei algumas moedas e entreguei para aquela mãe.


Cheguei ao templo e um cartaz fixado na porta me deixou muito nervoso. Em reformas.


Mil pensamentos passaram pela minha cabeça. Predominou a raiva e a inquietação. Novamente tive a minha atenção desviada com um som que vinha da praça que ficava nas imediações da catedral. Era um saxofone.


Gostei do que ouvia, mas resolvi ir para outra igreja. Precisava ter minha resposta, queria me encontrar com Deus ou pelo menos com um de seus representantes.


Agora de ônibus segui para o outro endereço da casa de Deus. Meus pensamentos foram interrompidos quando uma jovem grávida sentou ao meu lado. Virei o rosto e voltei a pensar em Deus.


Já na igreja me deparei com um padre. Fiquei feliz. Talvez ele me ajudasse a encontrar com Deus. Não, meu filho. Hoje eu não tenho tempo.


Saí da igreja mais triste ainda com a negativa do representante de Deus. Sentei num banco e fiquei a olhar as crianças que brincavam ao redor.


Um catador de latinhas, maltrapilho, sentou ao meu lado. Rompeu o silêncio perguntando se eu tinha conseguido falar com Ele. Para evitar prolongar a conversa, falei que não. Novamente aquele senhor, que tinha um cheiro forte impregnado no seu corpo, fez a mesma pergunta. Respondi que não.


Subitamente ele me pegou pela mão e contra a minha vontade disse que me mostraria onde Ele estava. Morrendo de vergonha, me deixei guiar.


Atrás da igreja tinha uma fonte cercada por roseiras. Achei que estava fazendo papel de idiota. O homem me levou até uma rosa bem vermelha, igual àquela que estava no meu jardim e me disse: Ele mora aí dentro e em todos os lugares. Eu me encontro com Ele aqui e você?


Fiquei em silêncio por alguns instantes e quando virei para responder ao catador de latinhas já o vi longe. Entendi o recado da vida, entendi o recado de Deus.

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