
Domingo é dia de pedirmos comida pronta para assim termos mais tempo para não fazer nada. Assim eu fiz outro dia numa destas manhãs chuvosas e frias de outono. Liguei num famoso "delivery" da região por volta do meio dia e pedi um prato para dois. Uma hora depois, voltei a ligar reclamando da demora. Já nervoso, meia hora após a última ligação, voltei a contatar o restaurante e ouvi da atendente que o motoqueiro já estava a caminho.
Minha companhia de almoço, bastante impaciente e com hora marcada, deixou-me só. Já com os nervos a flor da pele, resolvi cancelar o pedido. A campanhia tocou. Depois de duas horas de atraso meu almoço tinha chegado. Desci as escadas disposto a falar um monte de abobrinhas para o entregador. Silenciei ao ver o estado lastimável em que ele se encontrava.
Moço - disse-me ele – não se assuste com a minha aparência. Sofri um acidente, mas a seu marmitex ficou intacto.
Sujo, com a jaqueta jeans rasgada e com alguns arranhões nos braços ele abriu o que restou do baú de entrega e foi me passando o marmitex. De fato ela estava inteira. Toda a minha raiva deu lugar ao sentimento de pena e a uma reflexão.
Vivemos numa sociedade no qual um jovem, ao esbarrar em outra pessoa, teve a sentença de morte instantânea. Duas horas de atraso bastou-me para condenar aquele entregador a levar o marmitex de volta, ouvir de mim um monte de desaforos e ainda ter que se entender com o patrão.
Toda hora enfrentamos situações como a que eu vivi e quase sempre agimos por impulso. Matamos muitas pessoas diariamente com atitudes e palavras. Não podemos ser contrariados que já queremos tirar satisfação. O que importa é eu estar bem. Errar é humano só para mim, para o outro é inconcebível.
Após pegar o marmitex e já com outros sentimentos no coração, pedi para o moço esperar um pouco. Fui até o meu guarda roupa e peguei uma velha jaqueta. Peguei também um anti-séptico para limpar as feridas. Já na porta perguntei ao motoqueiro se aquela jaqueta poderia minimizar o frio até o restaurante. Ele disse que sim e informou que depois me devolveria. Disse a ele que era um presente e orientei-o a limpar suas feridas. Agradeceu, sorriu e partiu.
Almocei pensando no caso do entregador; pensando que, na maioria das vezes, cultivar o amor ou ódio só depende de nós. Fiz ali um propósito para a vida: não agir movido pelo desamor.
Meu telefone tocou. Era o dono do restaurante me agradecendo pela paciência da espera e pelo presente que eu tinha dado ao seu filho. Não se trata da jaqueta, disse aquele senhor, venha até aqui um dia destes que lhe contarei toda a história. Só me avise antes para eu poder lhe esperar.
Acatei o convite e passei no domingo seguinte naquele restaurante. O proprietário me abraçou e contou-me que naquele dia que o seu entregador tinha faltado. Bastante irado com o faltante, tinha pedido ao seu filho para fazer a primeira entrega do dia. Esse, mesmo contrariado, acatou o pedido do pai. O excesso de velocidade causou o acidente que quase lhe custou à vida.
Meu filho e eu – falou o proprietário do restaurante – aprendemos uma grande lição. É possível romper a corrente da raiva. Sua postura diante do atraso, seus cuidados com ele e até mesmo o presente que lhe deu, ajudou a romper um processo negativo que quase custou a vida do meu único filho. Hoje o almoço é por nossa conta.
Em silêncio dirigi-me a uma mesa sabendo que aqueles fatos também tinham sido uma escola para mim.
Uma hora depois levantei e gritei para o garçom que o meu almoço estava atrasado. Antes que o proprietário chegasse até a minha mesa, comecei a sorrir e a contar para todos como é possível construir a corrente do amor.
Nossa! revigorante, acredito que só o amor vai poder salvar o mundo.
ResponderExcluirEste relato ja me tocou profundamente e me fará a cada dia repensar alguns conceitos.
Deus o abençõe.
Realmente...o "quem importa sou eu" é muito presente na vida das pessoas hoje...esquecemos do "nós", independente dos motivos, razões, circunstâncias do "outro", acabamos enxergando somente o que "nós" queremos ver...e assim nos tornamos "cegos..."
ResponderExcluir"Trevas brancas a anuviar o olhar daqueles que, tendo olhos, não conseguem(ou se recusam a enxergar).
Uma cegueira por vezes associada ao avanço irrefreado do consumismo e do materialismo, que faz com que os homens percam a consciência de si, se deformem, se massifiquem e se barbarizem.
Uma cegueira que promove a ruptura com nossa própria essência - a compaixão, o cuidado, a solidariedade...
Penso que estamos cegos, Cegos que vêem,
Cegos que, vendo, não vêem...
Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara."
ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA - JOSÉ SARAMAGO
Bir, bjo no coração.....
Michely
Nunca é tarde para que possamos melhorar nossas ações quanto as pessoas e com nos mesmos, pois como diz um velho ditado ..."Guardar ódio e tomar veneno e esperar que a outra pessoa morra"... e muitas vezes ficamos com ódio ou irritado por tão pouco e esquecemos de viver o que realmente importa, as amizades o amor ao proximo à vida.
ResponderExcluirAlmir, interessante ao ler tudo isso é que hoje eu tive acesso a uma frase que diz o seguinte: "Eu aprendi que o amor, e não o tempo, cura todas as feridas"... Pensamento Chinês.
ResponderExcluirAbraços meu amigo
Léo Sarmento
Incrível como podemos aprender lições vitais com quem menos esperamos. Particularmente, acredito que todo mundo tem algo pra ensinar. TODO MUNDO, qualquer um, eu, você, o pedreiro da obra vizinha, o médico endocrinologista, o trocador do ônibus, a sua mãe, seu amigo do lado e o andarilho das ruas. Você foi brilhante ao descrever o que fazemos por ignorância, por vício ou por má-educação mesmo "Matamos muitas pessoas diariamente com atitudes e palavras". Parabéns pelo blog, aguardo uma visita também!
ResponderExcluirRefleti sobre seu texto e avalio como somos pouco toleraveis com outros profissionais que nos atendem, por causa do tempo louco que estabelecemos para os nossos dias.As palavras de maldição pronunciadas tem o poder de espalhar o odio.Pensemos mais em nossas atitudes, será que são coerentes com as pessoas?
ResponderExcluirAbraço socialista meu amigo
Estava só imaginando a cena:
ResponderExcluirvocê descendo para pegar as marmitas, aquela fome, cara de bravo,humm, iria rolar um barraco...Só que algo deu errado, e a situação mudou, você conseguiu se colocar no lugar do motoboy, e foi feliz em ajuda-lo, e tem gente que não consegue, bem acho que criou uma nova amizade, e isto é o que interessa, continue assim, mesmo quando todos os fatos contribuam para que maltrate as pessoas, seja gentil, isto certamente torna qualquer um superior, abraços e Deus te Abençoei..
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ResponderExcluirAlmir Parabéns...pelo seu blog, amei lindas mensagens, todas tem algum ensinamento,sou sua fã...bjs Taís
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