terça-feira, 27 de julho de 2010

A lata de água suja


por José Almir da Rosa


Quando ainda morava no interior atuei como recenseador do IBGE. Um aspecto do trabalho que me encantava, era a receptividade das pessoas. Além dos dados coletados pelo censo, também ouvi muitas histórias e uma que sempre me recordo é a da lata de água suja.

Tudo aconteceu quando eu cheguei à casa de uma senhora idosa que cuidava de várias crianças, a fim de que os pais pudessem trabalhar. Ela e as crianças estavam ao redor de uma tábua de lavar roupa, próxima de uma mina de água no fundo do quintal. Enquanto exercia o seu ofício de lavadeira, conversávamos e as crianças brincavam com terra e água formando esculturas de bolos, doces e tudo mais que é compatível com a criatividade de uma criança.


No meio da conversa a senhora me perguntou, subitamente, se eu acreditava em Deus. Sem pestanejar disse que sim. Ela me respondeu que tinha dúvidas se Deus existia, pois não sentia a sua presença, sobretudo porque o filho mais novo, que deveria ter seus 20 anos, estava envolvido com más companhias e desempregado e, por isto, ela já tinha pedido muito a Deus para que fizesse um milagre na vida dele, mas até agora nada havia mudado e ela temia o pior.


Fiquei meio sem saber o que responder para a lavadeira e, olhando as crianças brincarem, surgiu-me uma luz. Tomei emprestada uma latinha que era usada por uma delas para colher água na mina e, do jeito que estava, trouxe até perto da bica que caía sobre a tábua de lavar. Na lata continha água misturada com terra. Mostrei como estava a água, pedi licença à senhora e coloquei o recipiente de água suja embaixo da bica de água limpa. Sem entender direito, a lavadeira continuou a me contar o caso e, de recenseador, acabei me tornando ouvinte.


O tempo passou, a história acabou e a senhora, de tempo em tempo, espiava a lata d´água. Como nosso diálogo cessou, ouvíamos ao fundo o som das crianças e com destaque o barulho da água. Ela, querendo entender, perguntou-me o que eu esperava com aquilo. Peguei a lata na mão e, lentamente fui despejando a água que lá continha. Pedi para que ela observasse que apesar de não termos jogado fora à água suja, a bica, no seu tempo, se encarregou de realizar tal tarefa. A pergunta dela veio em seguida. E daí?


Deus atua assim em nossas vidas: em silêncio, lentamente, sem agredir, na maioria das vezes usando as pessoas que acabam sendo o encanamento por onde passa a água limpa. A velha senhora entendeu a mensagem e com uma lágrima no rosto me agradeceu.


Depois de muito tempo encontrei tal senhora na rua. Sem parcimônia ela foi logo dizendo que o jovem do seu lado era a lata de água suja e que a bica de água já estava fazendo efeito. Moço, disse ela, foi a melhor imagem de Deus que me foi apresentada até hoje. Sorri, segui meu caminho e ela o dela.

3 comentários:

  1. Nossa que linda!
    Essa mensagem é uma verdadeira voz de Deus, falando com aqueles que a lerem.
    Obrigado e que Deus continue lhe abençoando e lhe inspirando.
    Abraços

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  2. Essa mensagem me faz lembrar de amizades que ao longo do tempo vamos selecionando os que realmente fazem a diferença para nossa vida e reciprocamente a dos amigos, das que estão na condição de "amigos", com a benção de Deus ele vai separando os sujos dos limpos, obrigado.

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  3. Meu amigo, seu artigo me fez lembrar da epoca que vivi no interior,eramos mais sinceros e honestos com todos, não viviamos sobre um mundo de areia, hoje sinto que tudo esta sempre desabando.As pessoas são falsas e arrogantes abusam da boa fé dos humildes para se promoverem.Parabenizo-o porque sei que vc não perdeu esta esencia do querer fazer o bem, e na simplicidade de suas palavras conseguiu trasmitir sua mensagem de esperança.Voce nasceu para ser estrela cadente, porque tem brilho proprio, que o bom DEus te proteja na sua jornada.
    Abraço socialista
    Ivanil

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